Pegadas desprevenidas
Recolhidas na calada da noite
Após um surto de irreverência.
Hoje vi uma pergunta no Yahoo! Respostas que me deixou tocado. Era uma mulher que apresentava uma ideação suicida relatando seu desejo de se jogar diante de um caminhão. Ela pede ajuda, pois não vê solução para suas mazelas.
A ideação suicida é um calcanhar de aquiles para o psicólogo. Pisamos em ovos quando estamos diante deste quadro tão presente hoje em dia. É impressionante o número de casos que chegam aos hospitais todos os dias. Já tive a oportunidade de ter contato com quase dez casos de autoquiria. É o tipo de perda que permanece reticente com uma dor vazia naqueles que ficam, permanecendo por muito tempo um mal estar generalizado como se cada um dos sobreviventes assumisse uma parcela do homicídio.
Transcrevo abaixo (com adaptações) o texto que publiquei no Respostas:
Hoje em dia um número muito grande de pessoas olham para suas vidas como se tudo estivesse perdido e que nada mais poderia ser feito para melhorá-la. Mesmo as coisas mais belas e mais gostosas ficam sem cor e sem sabor.
A mera manifestação de alegria num rabo rodopiante de um cão soa como uma trombeta do apocalipse.
Caos! É tudo o que se vê diante dos olhos.
Vazio! É tudo o que se vê por trás dos olhos.
O corpo arde num marasmo sem tamanho. Todo o desejo se volta para se sepultar sob o travesseiro para se esconder de si mesmo no único lugar em que parece não acontecer nada.
Uma dor indefinida toma conta do ser, latejando em músculos frageis e dormentes. Já não tem vontade de mais nada. É agora que diante do abismo invisível entre a cama e a janela bate aquela vontade danada de partir para onde nem mesmo você encontraria.
É isto o que representa a morte para a pessoa com ideação suicida. Um desejo louco para ir a um lugar distante, mas tãodistante que nem esteja neste mundo. Um lugar em que você desconheça e não possa reconhecer a si próprio com seus medos e suas fraquesas, onde não terá nenhum espelho gritando em sua cara as desventuas e más escolhas que fez em sua passagem pela terra.
É mais ou menos isto o que ocorre?
Então tenho uma boa notícia! Tudo isto ocorre contigo por um objetivo. Esta sensação de desamparo e mal estar não existe por acaso. Ela vem sinalizar que há algo que precisa ser mudado para se perceber que você já habita aquele lugar distante desejado.
Juro, de rocha mesmo, que já vi situações de vida miseráveis em que a pessoa perde a noção de humanidade. Pessoas envolvidas com as situações mais catastróficas inimagináveis. Pessoas vítimas de todo tipo de abuso, negligência e violência. Pessoas que tiveram que aprender novas formas de viver e pintar novo colorido no mundo.
É possível para todos. Hoje ser feliz não é normal. Cada um constrói suas próprias ilhas de sofrimento num arquipélago de tédio e desilusão.
BESTEIRA! Não se culpe pelo caminho que traçou até chegar aqui, mas mexa-se até um novo caminho.
Lembre-se que o homem (ou mulher) que tem força e coragem para exterminar sua própria vida, enfrentando seus medos, seu senso de autopreservação e sua própria culpa se jogando num plano desconhecido sem volta é alguém capaz de tudo, inclusive de reverter sozinho toda situação e construir com as próprias mãos a sua feliciade e um novo propósito de vida.
Parabéns! Você conseguiu chegar ao fundo do poço. O próximo passo agora é pegar impulso para se projetar à superfície e ir além do que jamais foi antes.
Sozinho pode ser muito mais difícil. Considere a ajuda de profissionais experientes e das pessoas que te amam.
Sem demagogia, você terá muitas razões para crer que vale muito a pena estar aqui e agora! E o melhor, descubrirá que muitas desas razões sempre estiveram ao seu lado.
Qualquer coisa, entre em contato comigo. Lembre-se, não deixe para o outro tomar a atitude por você.
Paulo Marques


